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ENTREVISTA
A MARCO VASQUES
in
VASQUES, Marco. Diálogos com a literatura brasileira
Florianópolis: Editora da UFSC; Editora Movimento,
2007. v2
No
livro Rondas de escárnio e loucura, dois contos
são profundamente marcados por uma crítica ao
modelo social vigente: “Pessoas de bem” e “Na
era do silício”. Você acredita na possibilidade
de fugirmos deste modelo de sociedade? E qual a contribuição
da arte para que se possa recuperar a singeleza da vida?
A
insensibilidade, o egoísmo, o arrivismo, são
marcas de nosso tempo. Na vigência do socialismo oriental,
sonhava-se com o humanismo comunista e com um futuro luminoso
para o homem. Quando o socialismo naufragou, após ter-se
mostrado uma pífia arca de Noé, impôs-se
o dilúvio capitalista e, claro, o velho imperialismo,
que continua afogando as nações pobres com o
nome eufêmico de globalização. Nesses
países, quando as forças ditas progressistas
assumem o poder, logo se corrompem, enveredando pelos piores
vícios do socialismo soviético, como o stalinismo.
Não há alternativas. Se antes a opção
era entre socialismo e barbárie, agora não há
mais socialismo. A arte não pode fazer nada e acaba
sendo apenas um lamento dos inconformados. E de qual arte
falamos? Da literatura, passatempo de meia dúzia de
gatos-pingados? Da pintura, apa-nágio de quem tem dinheiro
para valorizar suas paredes? Do cinema, que para cada filme
sério produz centenas privilegiando a violência?
Arte, hoje, é a televisão, é a fúria
da publicidade, que não são feitas para recuperar
os melhores valores humanos, antes o contrário.
Se
não há alternativas, o que nos resta? Estamos
condenados a assistir a nossas próprias atrocidades?
E
não é o que vemos diariamente nos jornais? A
vida já não vale nada. A perver-sidade humana,
fruto da desesperança, da descrença, da subordinação
da dignidade a interesses deletérios, já não
tem limites. Para que convalescêssemos dessa doença,
seria preciso que acreditássemos num remédio.
Mas esse remédio não existe.
Lágrimas
na chuva narra sua ida para a Rússia e sua participação
no Partido Comunista Brasileiro. A experiência, como
está explícita no livro, foi traumática,
pois você se deparou com um mundo onde a liberdade e
a individualidade foram tolhidas. Por outro lado, temos personagens
como Jaime, Nina e Lara, que são ternos e encantadores.
Fale um pouco sobre essa experiência.
No
momento em que me desencantava com o socialismo e não
sabia no que acreditar – ainda não me animava
a, simplesmente, desacreditar –, aquelas criaturas me
deram uma demonstração de solidariedade humana
e da capacidade de amar, mas não nos esqueçamos
de que foram episódios singulares, interpessoais, meras
exceções, das quais você mesmo poderá
dar exemplos. A regra universal é bem distinta.
Em
Dançar tango em Porto Alegre, encontramos
contos com uma linguagem mais universalizada, isto é,
sem o uso de termos regionais, e também contos que
fazem uso de termos locais do Rio Grande do Sul. Por que a
escolha de trabalhar com as duas linguagens em um único
volume?
Em
Noite de matar um homem, de 1986, publiquei contos que
se passam na fronteira em que o Rio Grande do Sul se encontra
com a Argentina e com o Uruguai. Os personagens falam como
é típico da região. Na maior parte dos
contos, a narrativa é na primeira pessoa, e o narrador,
necessariamente, usa o mesmo vocabulário. Em Doce
paraíso, de 1987, o editor reuniu contos de livros
anteriores em que os personagens são adolescentes em
suas primeiras experiências de vida, uma edição
que se destinava aos leitores juvenis. No mesmo ano, publiquei
A dama do Bar Nevada. E em 1991, Majestic Hotel,
ambos de relatos urbanos. Dançar tango em Porto
Alegre, de 1998, não é um livro que eu
tenha escrito com múltiplas linguagens. É uma
antologia que organizei, a pedido do editor, para sua coleção
de bolso, e foi estruturada de acordo com as vertentes citadas:
os contos fronteiriços, os juvenis e os urbanos. É
a mesma disposição do volume Contos completos,
que a L&PM lançou em 1995.
Quando
e como você decidiu que seria um escritor? Algum autor
o influenciou dessa decisão?
Quando
eu era pequeno, minha mãe costumava ler em voz alta
um livro de antigas histórias, chamado Pérolas
esparsas. Um dos capítulos versava sobre o naufrágio
do Titanic. Eu ouvia com encantamento e depois imaginava histórias
parecidas. Na adolescência, meu pai me internou num
colégio de irmãos maristas, em Porto Alegre,
onde eu precisava acordar diariamente às seis da manhã
para ouvir missa, confessar e comungar. Sentia uma saudade
mortal dos amigos, da família, de minha casa, de minha
cidade, sobretudo de minha liberdade, e sublimava esse sentimento
escrevendo cartas intermináveis. Já percebera
que escrever era a única coisa que sabia fazer mais
ou menos bem. Em 1962 fui trabalhar em Blumenau. Ali fiz amizade
com alguns moços que escreviam, entre eles Roberto
Gomes, que hoje mora em Curitiba, e percebi que podia dar
um sentido à minha imaginação e ao meu
amor pelas palavras.
Foi
nesse período que, em Blumenau, você conheceu
Francisco José Pereira, que o indicou para viajar à
Rússia. Essa história você já contou
em Lágrimas na chuva. Mesmo assim, gostaria
que falasse algo sobre o clima daquela época.
Eu
tinha 22 anos e era Chefe de Secretaria do órgão
de primeira instância da Justiça do Trabalho
em Blumenau. Francisco fazia advocacia trabalhista, defendendo
a classe operária. Era uma pessoa encantadora, e nos
tornamos amigos, como até hoje. Militante comunista
desde a juventude, convidou-me para entrar no Partido. Naquela
época – governo de João Goulart –
havia grande agitação política em Blumenau,
um reduto de empresários conservadores. As diferenças
ideológicas eram acirradas, radicais. Quando ele me
ofereceu o curso, aceitei. Muita gente pensa que, com o convite,
ele me prejudicou, considerando-se o que houve na Rússia.
Não é assim. Imagine o que teria acontecido
se eu estivesse em Blumenau, em 31 de março de 1964.
De resto, meus problemas em Moscou não eram previsíveis.
Sou muito grato a esse velho e querido amigo, devo-lhe a mais
rica experiência da minha vida.
Em
entrevista concedida a Paulo Bentancur, em 2000, você
disse que parara de escrever porque acreditava que não
estava fazendo o melhor. O silêncio permanece?
A
matéria referia-se a uma outra entrevista, de 1995,
quando publiquei os Contos completos. Entendi que
não devia mais escrever quando notei, no início
daquela década, que meus contos estavam perdendo o
já escasso vigor que possuíam. Não abandonei
a literatura, meu desencontro era com a ficção.
Depois dos Contos completos, fiz algumas tentativas, como
os contos “Madrugada” e “Saloon”,
mas o fato é que, não superando as dificuldades,
fui perdendo o interesse pelo conto. Se eu viver, digamos,
mais 20 anos, é possível que ainda escreva e
publique dois ou três contos, mas tem de ser uma história
que me arrebate até o insuportável.
Sentar
à mesa para escrever ainda lhe dá tédio,
sono, náusea, como você declarou naquela entrevista
mais antiga?
Esse
fastio pela ficção era tão profundo que,
à mesa, sentia tonturas e ânsia de vômito.
Era uma espécie de fobia, mas relacionada apenas com
o conto. Os enjôos pouco a pouco foram desaparecendo,
tanto que, nos últimos quatro ou cinco anos, com muito
esforço, pude escrever aqueles contos que citei e mais
um ou dois. Isto não quer dizer que tenha a intenção
de me devotar novamente ao gênero, como o fazia nos
anos 70 e 80. Ainda que tentasse, não conseguiria trazer
para o conto o melhor de mim, porque esse melhor, aparentemente,
já se esgotou. Ou talvez eu já não saiba
encontrá-lo.
O
exercício da tradução o ajuda, de alguma
forma, a superar a idéia de que você não
consegue mais recuperar o seu melhor? Fale um pouco sobre
o encontro com os personagens alheios.
A
tradução é um bom exercício para
quem escreve, sobretudo para quem está começando
a escrever. Você é obrigado a reconstituir no
seu idioma aquilo que o autor constituiu no dele, e isso exige
que saiba domar o seu fraseado, nem sempre com o vocabulário
equivalente. Às vezes é preciso trair para ser
fiel. No entanto, se a tradução dota o tradutor/escritor
de maior capacidade de manobra, da qual há de valer-se
em suas próprias obras, a excessiva dedicação
às obras alheias pode fazer com que perca alguns traços
de seu rosto. Eu traduzi uns 30 livros. É possível
que daí tenha derivado uma parte de meus problemas
com a ficção.
O
que mais o incomoda no meio literário?
Minha
experiência no convívio com outros escritores
é tão boa quanto pequena: tenho maior intimidade
– de trocar visitas, de almoçar com as respectivas
famílias – com um grupo muito reduzido. Vejo
com mais freqüência Luiz Antonio de Assis Brasil,
e de literatura é o que menos falamos. Então
quase nada sei do chamado meio literário, e como moro
longe do centro e dificilmente compareço a eventos
dessa área, nunca o conhecerei bastante.
O
que você diria a um jovem candidato a escritor?
Quase
nada. Não existe fórmula literária mágica,
cada um tem de descobrir seu caminho, que nunca é igual
ao dos colegas. E descobrir sozinho, a ajuda pode desviá-lo
da rota traçada pelas singularidades de seu talento.
Oficina literária só se o professor for alguém
capaz de valorizar essas singularidades, que por certo diferem
das suas. Já que tenho de dizer alguma coisa, diria
ao jovem erscritor que trate de publicar o que escreve em
jornais, em revistas ou mesmo na Internet. A publicação,
na medida em que proporciona uma visão compartilhada
do que escreveu, torna mais agudo o seu senso crítico.
Embora
saiba que você não escreve mais contos com a
regularidade dos anos 70 e 80, gostaria de saber como surge
um conto seu e quando você percebe que ele está
finalizado.
As
idéias podem surgir de uma emoção, de
uma experiência pessoal ou alheia, de um fato que chega
ao meu conhecimento, de algo que penso e logo descubro que
pode se transformar num bom relato, enfim, de muitos e distintos
modos. E não é tão difícil perceber
quando o conto está finalizado, ao menos no meu caso.
Eu o trabalho demoradamente, às vezes durante anos,
e o considero pronto quando, no meu entendimento, ele reproduz
tão bem quanto possível, dentro da minha circunstância,
o sentimento que me levou a escrevê-lo. Mas é
um processo laborioso este de converter uma expressão
sentimental em expressão literária. Nos anos
70 – minha filha maior era um bebê de colo –,
escrevi um conto que não me satisfez. Quando o aprontei,
ela estava fazendo sua residência médica.
Você
publica crônicas quinzenais no jornal Zero Hora.
Pretende publicar mais livros de crônicas?
Continuo
escrevendo porque é o que sei fazer, mas já
não me entusiasmo com a idéia de publicar livros
– a literatura, nesse formato, parece interessar a um
público cada vez menor e, portanto, tem hoje uma importância
quase nula na vida social. Refiro-me à regra. Há
livros lidos ou ao menos comprados por milhões de pessoas,
mas são exceções e geralmente obras de
baixa qualidade, como esse O código Da Vinci,
que está na moda e é uma interminável
sucessão de disparates. Eu não tomaria a iniciativa
de publicar mais um livro de crônicas ou de qualquer
outro gênero. Neste ano, sai a segunda edição
dos Contos completos, mas sai porque o editor assim
o quis, não a reivindiquei. Se o editor pede, cedo.
Se não pede, calo-me, e posso garantir que, nesse particular,
vivo em sossego comigo mesmo.
A
crítica alcunha sua obra como uma das mais importantes
do país. No entanto, até nos meios literários
você parece não ser muito lido. Por quê?
Trato
de fazer o que posso, mas se o que posso não é
o bastante, aí está um conflito que foge à
minha alçada. Há certas circunstâncias,
sei bem, que embargam o curso de meus livros: não vou
a congressos, dificilmente dou entrevistas, não participo
do tal meio literário, vivo mais ou menos isolado etc.
São prejuízos de somenos. A questão cardeal
é que aquilo que sei fazer parece combinar com o gosto
de um pequeno número de pessoas, quase uma seita secreta.
Não me incomodo. Não posso nem quero ser diferente
do que sou, escrevendo de outro modo. E para mim tanto faz
ser muito ou pouco lido, mesmo porque esse muito se perderia
no vazio, como a maioria dos livros que se publicam. Quando
lamento o diminuto papel social que tem hoje a literatura,
estou refletindo sobre os livros em geral, e não sobre
os meus em particular.
Existem
autores que dizem não estar preocupados com o leitor,
mas, afinal, não escrevemos para atingir leitores?
A
pergunta alude a situações distintas. Quando
escrevo, minha idéia fixa é empregar todos os
recursos de que disponho. Por que deveria pensar no leitor
ou mesmo nos críticos? Se sou o dentista e você
o paciente, acaso devo me perguntar como fazer meu trabalho
para que seja de seu agrado? A outra situação
é a do texto pronto, se o escritor deve se preocupar
com seus efeitos junto ao leitor ou à crítica.
Continuo achando que não. Quem deve estar atento a
essas referências é o editor, que vende livros,
não eu, que não fiz nem mais nem menos do que
pude. No exemplo odontológico, se você vem me
dizer que não gostou daquilo que fiz com todo o cuidado
e valendo-me de tudo o que aprendi, nada posso fazer senão
aconselhar: “Meu filho, procure outro dentista”.
Mas
o fato de você dar o máximo de si e usar todos
os seus recursos já não demonstra uma preocupação
com o leitor?
Preocupando
ou não o escritor, o leitor é um componente
necessário do papel que desempenha ou deveria desempenhar
a literatura na vida social, mas é um componente de
seus efeitos, não de sua causa, ele não integra
o processo da criação literária. O escritor
não pode escrever pensando no nível cultural,
na inteligência ou na sensibilidade de quem vai ler.
Seu compromisso é só com a literatura, e ele
escreve para um leitor ideal que no fundo é ele mesmo.
Acaso Joyce pensava no calibre intelectual de seus leitores?
O escritor, nos limites de seu talento criador e de seu domínio
da palavra escrita, traduz aquilo que sentiu para esse leitor
ideal. Nessa tradução, a presença do
leitor concreto é uma excrescência.
Por
que esse desinteresse em escrever e publicar? Você acredita
mesmo, como disse em outra resposta, ter exaurido o seu melhor?
Você não sente necessidade de dizer algo mais?
Eu
não disse que perdi o interesse por escrever. Continuo
escrevendo, tenho de publicar minhas crônicas em Zero
Hora, mantenho a correspondência em dia e, de quando
em quando, escrevo pequenos ensaios, como já os fiz
sobre Shakespeare, Tiradentes e certas passagens da história
grega. Escrever é que dá sentido à minha
vida, ainda que escrevesse e guardasse na gaveta. Publicar
em livro é outra história. Um livro precisa
se justificar, ter uma ambição de permanência.
E ainda que se justifique, já não acredito,
como tenho dito, que os livros sejam tão importantes
na vida das pessoas. E, como também já disse,
a época de meus melhores contos passou. Não
é uma pose. Não pense que não tento.
Mas se a ficção já não me empolga
como antes, como eu conseguiria explorar com êxito os
recursos que me restam?
Como
você se sente sendo nomeado um dos melhores escritores
do país, quando hoje no Rio Grande do Sul existem mais
de dez ótimos escritores?
Quando
perguntam ao Assis Brasil qual, na sua opinião, é
o melhor escritor brasileiro, ele responde com outra pergunta:
“Os escritores, acaso, estamos disputando um páreo?”
Cada escritor tem qualidades que lhe são próprias,
e cada leitor suas preferências. Tanto os críticos
como os leitores, a longo prazo, às vezes se enganam,
vendo eternidade no que é efêmero, e vice-versa.
No início do século XX, Coelho Neto e Humberto
de Campos eram os grandes nomes da literatura brasileira,
e hoje ninguém se lembra deles – um esquecimento
que pode ou não ser injusto. Se eu morrer amanhã,
quem garante que, depois de amanhã, alguém se
lembrará do que escrevi ou mesmo de que existi? É
possível e até provável que o grande
contista brasileiro da atualidade seja um autor do qual, agora,
poucas pessoas ouvem falar. O que quero dizer é que
o juízo contemporâneo tem um valor muito relativo.
O
que fazer com a proliferação da subliteratura
engendrada nos milhares de academias e federações
Brasil afora?
Nada
a fazer. Devemos, ao contrário, garantir que todas
as pessoas possam expressar seus anseios literários.
Podemos e talvez tenhamos a obrigação de fazer
nossos juízos, mas quem decide sobre a vigência
ou não de uma obra literária não somos
nós, são os que vêm depois de nós.
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