O CÉU NÃO É TÃO LONGE

             Ao prender a rédea no palanque, onde paravam já outros cavalos, notou Isidoro que, na cancha de osso ao lado do bolicho, os homens o olhavam, e tais olhares, embora insistentes, não eram provocativos, antes curiosos, surpresos. Gente conhecida, peões da vizinhança que folgavam, e Isidoro, que vinha de uma estância próxima, onde capatazeava, e ia para outra mais distante – as visitas domingueiras ao mano –, estranhou essa atenção. O zunzum sobre a menina cruzara já a porta do bolicho? Afrouxou sobrecincha e cincha, aliviando o ruano. Deu uma palmada na paleta do animal, pendurou o chapéu na cabeça do lombilho e arrodeou o palanque. Da cancha, ainda o olhavam, agora com disfarce.
             Três homens ao balcão.
             – Buenas.
             Nenhum se voltou. Bebiam. Joaninha, saindo da cozinha, murmurou algo que ele não compreendeu e imaginou ser um cumprimento.
             – Como passa o senhor seu pai ? indagou à moça.
             – Assim-assim.
             – Continua no hospital?
             Pois continuava, e derrubou o copo ainda vazio de Isidoro.
             – Ai, desculpe.
             Ao servir, as mãos dela estremeciam.
             Os homens, que no toco Isidoro esmiudara, eram três polacos um tanto despilchados: dois de alpargatas, camisas remangadas, o outro com a túnica de um longínquo sargento, puída, sem botões, e tênis tão acalcanhados que pareciam natos já como chinelos. Admirou-se de nunca tê-los visto e, pior, não receber a saudação que se costumava dar a quem chegava, perguntando-se pelo destino e o estado do cavalo.
             Era gente da cidade.
             E pela estampa, gente ruim.
            Na ponta do balcão, olhos baixos, ele degustava sua branquinha, e num gesto mecânico levou a mão ao coldre, na guaiaca. O revólver ficara em casa, não o carregava aos domingos. Um gole e sentiu-se menos cismado, e logo bem-disposto ao ver os polacos pagarem a bebida e se retirarem. Um deles disse à moça:
             – As melhoras de seu pai, dona.
             Joaninha abriu a boca, mas não se ouviu nenhum som.
             – Outra – pediu Isidoro.
             Ao invés de servi-lo, ela correu à porta para espiar. Isidoro a observava e ouviu o rumor das patas quando os homens ganharam a estrada, a trote. Joaninha se acercou, ofegante.
             – Fuja, fuja!
             – Mas que é isso, moça?
             – Estão armados e dêle a perguntar pelo senhor.
             – Ah é? E o que a moça disse?
             – Que o senhor passava de manhã, ia visitar o irmão na Alvorada. Só depois vi o revólver... Fuja, seu Isidoro!
             – Não tenho do quê, vai ver que é negócio.
             – Não há de ser! Não há de ser!
             – Moça preocupada com o pai...
             E passou-lhe a mão no rosto, um gesto quase delicado.
             Joaninha tinha 32 anos e era solteira, também dentuça, feinha, mas um mimo de mulher, se conduta e bom gênio contassem no juízo masculino. O bolicheiro desejava casá-la com Isidoro, mas este, por mulherengo, negaceava, não era de seu feitio aferrolhar-se a uma mulher e o que lhe apetecia era manter dois ou três cambichos nos puteiros de Maçambará. No entanto, a uma única mulher devia o perigo que talvez estivesse a correr.
             – Não se assuste - tornou -, será algum interesse nos meus boizinhos. Em todo caso, se a moça vai se anervosear é melhor que eu leve aquela parabelo do senhor seu pai. Não que precise.
             A caminho da Fazenda Alvorada, Isidoro devotava seus pensamentos a uma outra estância, a do Umbu, e figurava a caçula de Dom Romualdo Castanha, senhorita Maria Luíza.

***

             Ao recorrer, com a devida licença, os campos lindeiros do Umbu, à cata de uma rês extraviada, vira o petiço na margem do arroio, amarrado a uma sina-sina, e Maria Luíza seminua, reclinada no pasto sobre a toalha. Rapariga levada. Já uma vez o provocara com requebros e nhenhenhéns, quando estivera no Itaqui para tirar um documento e visitara o pai dela. Era da raça do fósforo, bastava um risco, maiormente agora que despachara o noivo amaricado. Ia passar ao largo, mas a tentação de vê-la de perto foi mais forte.
             Maria Luíza sentou-se, abraçando as pernas. O seio, encobrira com a ponta da toalha.
             – O senhor por aqui, seu Isidoro?
             – Eu mesmo. Desde cedo estou campeando a mocha brasina que varou o alambrado. A menina não viu?
             – E que visse... Não conheço pêlo de vaca.
             – Brasina é cor de brasa, malhada de escuro.
             – Posso ter visto... sem ver. Não quer apear?
             – Grácias, aceito.
             Ao desmontar, atando a rédea na mesma arvoreta, não dissimulou uma olhadela à calcinha da menina, onde abojava aquela sombra densa. Acocorou-se à meia distância.
             – Então... como passa Dom Romualdo?
             – Bem. E seu patrão?
             – Bem.
             – Está aí?
             – Não, foi ontem pro Itaqui.
             – Papai foi hoje. Se estivesse aqui, eu não poderia me bronzear. Fico assim como o senhor vê, quase sem roupa.
             Ele aprovou com a cabeça, embora lhe fosse difícil entender por que ela precisava se tostar ao sol da meia-tarde.
             – São essas coisas...
             – Que coisas, seu Isidoro?
             – Bueno, coisas da vida...
             Ela riu, e os alvos dentes do riso a tornavam mais convidativa. Na sina-sina, o petiço priscou, mordido pelo ruano.
             – Olhe só o seu cavalo, que malvado.
             – É retouço. Quem não gosta de um retouço?
             – O senhor gosta?
             – Eu mais que todos.
             – O senhor é tão engraçado...
             E riu de novo. A toalha tinha caído e Isidoro viu o seio nu, apertado contra o joelho.
             – E a senhora, se desculpa o atrevimento, uma lindona.
             – Acha? – e mordeu o lábio, e estirou as pernas, e nos mimosos morretes os bicos negros e eriçados pareciam apontá-lo e culpá-lo por falta de saliva. – De rosto?
             – De tudo – a garganta lhe secara – e mais um pouco.
             – Mais um pouco?
             – Um pouco muito – e ajuntou, num arranco: – Uma dona como a senhora leva um homem até o céu.
             – O senhor também, seu Isidoro?
             – Mais que todos.
             Ela se aproximou, de gatinhas, e tocou no braço dele.
             – O céu é muito longe. Não quer ir comigo até a tapera, que é mais perto?
             – Com a senhora – pôde responder, num cochicho, aturdido pelos corcovos de seu sangue –, vou até onde mora o belzebu.
             Antiga morada de um posteiro, a tapera era o refúgio de um cacunda guacho que, durante o dia, esmolava na vila do Bororé. As paredes de tábua estavam prestes a tombar. Não tinha telhado, e folhas de zinco na cercania atestavam a violência do vendaval que a destampara. Tivera quatro peças, agora três com a queda de um tabique, e por tudo coalhava a flexilha, despontando no buraco das janelas. Por tudo, não. A um canto, a casita dentro da casa: uma pequena cobertura de zinco e couro, à meia altura da parede, suspensa em cada extremidade por dois pares de tramas em xis enrabichadas no chão. Debaixo, um pelego sobre tábuas e ali a menina deitou, arreganhando as coxas, as narinas a fremir como as das éguas.
             E era limpa, cheirosa, e era macia. E como sabia se acomodar, espremida pelo macho, como o entrelaçava, apresilhando-o com as pernas trigueiras, como o aceitava, secretando a vereda de seu faminto abismo. E Isidoro, estuando de desejo e emoções desconhecidas, começou a descobrir que, em sua vida empachada de mulheres, era a vez primeira que veramente entrava num corpo que ansiava por seu corpo, era a vez primeira que veramente cobria uma mulher e o resto era bagaço comprado a pouco pila.
             A fortuna é perversa: se dá o pão, tira o miolo.
             Quando o cacunda os viu e abalou feito o gato da água, Isidoro pressentiu que sua descoberta tinha preço. De fato, na mesma semana soube que Dom Romualdo sapecara a filha, e esta, sem demora, fora devolvida à casa da cidade, à mercê da língua do povo e fadada a morrer solteira.
             E agora aqueles polacos.

***

             Avançava o ruano a passo, vigiado pelo passaredo na galharia que se debruçava sobre a estrada. Vinha uma jardineira ao seu encontro, com ela uma musiquinha, e Isidoro disse consigo que o peão da Alvorada, que nos domingos demandava ao bolicho por mantimentos, jornais e cartas, estava atrasado. Costumava topar com a jardineira mais cedo.
             Pararam.
             – Buenas – disse o peão, desligando o radinho Spica, sintonizado na Rádio Itaqui.
             – Buenas.
             – Como passa o senhor?
             – Bem. E tu?
             – Bem.
             Calaram-se, por momentos olharam ao longe para algo que certamente não viam.
             – E meu mano? – recomeçou Isidoro. – Guareceu do pé?
             – Pois guareceu. Já hoje andou montando.
             – Não dói mais?
             – Diz que dói, mas menos.
             – Tem que ir no doutor.
             – É o que eu digo.
             – Mas é xucro.
             – Demais.
             Isidoro dobrou a perna, repousando-a no pescoço do ruano.
             – E esse tempo? Vem água pra de noite?
             – E vem que vem, a formiga anda que só ela.
             – Eu vi.
             – Formiga não mente.
             Riram. Isidoro ofereceu a fumeira.
             – Tá servido?
             – Como não? Já fiz o meu hoje, mas... mais um, menos um...
             Fizeram os cigarros e fumaram em silêncio, com longas e prazerosas tragadas.
             – Me voy – disse Isidoro, recolhendo a perna. – A formiga é sincera, mas que a manhã tá bonita, tá.
             – E movimentada.
             – Não diga.
             – Digo. No mato aqui pra trás, perto da cruza da sanga, vi três pilungos maneados.
             – Três?
             – Um, dois, três.
             – Um gateado e dois rosilhos?
             – Encilhados.
             – De que lado?
             – Pro senhor, às direitas.
            – E os fulanos?
            – Até parei pra olhar. Não se mostraram.
            Por isso se atrasou, pensou Isidoro.
            – Bueno, te aguardo na Alvorada com o mate andando.
            – Com muito gosto – agradeceu o peão. E para o cavalo: – Te mexe, lasqueado!
            A jardineira se afastou, erguendo difusa polvadeira, e Isidoro cutucou o ruano. Inquietava-se, mas não era homem de fazer volteios diante de um aperto. De que adiantava refugá-lo? Conseguindo hoje, amanhã não conseguia e então era o caso de apurá-lo, quando menos para não passar dias e semanas no puxa e afrouxa, com prejuízo do serviço. E mais: fazia oito anos que, no domingo, ia matear com o irmão, que retribuía no seguinte. Não ia atropelar o costume, entregando as fichas àqueles sebentos.
            Meia-légua adiante a estrada serpejava coxilha arriba. Além, no fim do lançante, assanhava-se um fio d’água entre pedregulho que chamavam Sanga dos Antunes, e grassava o mato pelas bandas do caminho. Quem quer que lá estivesse à espreita avistaria um ginete no topo da coxilha, mas Isidoro, a passo, seguia rumo ao seu destino.
            Seguia também o dia no campo, que se abria qual um mar: a garça-vaqueira no meio do gado, a inocência estrábica dos nhandus te mirando, e te mirando também, de um moirão, o perverso quiriquiri, e o grito das saracuras num banhado, e a vigilância ruidosa dos quero-queros, e o vôo remoto dos infaustos urubus, evocando a morte, e a doçura das rolinhas-picuí a namorar num garupá, evocação da vida. Uma súbita preá cortou a estrada, em busca de seu gravatazal.
            À distância, podia afetar que o ginete cabisbaixo vinha adormecido ou borracho, mas seu olhar espiolhava o cenário: acabara de ver adiante os cavalos, onde lhe indicara o peão, e os fulanos, decerto, estariam à esquerda, supondo que haveriam de surpreendê-lo. Apeou e, com o ruano a cabresto, entrou no mato, não muito, o bastante para arredar a montaria do bochincho. Com rápidas passadas retornou à orla e se ocultou atrás de uma guajuvira. Enxergava o caminho de laço a laço e, por supuesto, quem tentasse atravessá-lo. Sabiam os polacos que ele apeara ali, mas o que não sabiam nem podiam saber, porque eram da cidade, é que ninguém se move despercebido num capão cerrado: aqui vai o intruso, diz o bulício das asas nas grimpas do arvoredo.
            Ao pé da guajuvira, esperou.
            Eles se aproximavam e acima de suas cabeças esvoaçavam ora a juriti-pupu, a caturrita, o bem-te-vi, ora o pardalzinho, o sabiá-laranjeira, o tororó, e Isidoro crispou-se quando a revoada alcançou as primeiras árvores esparsas. Encostou a pistola no tronco e não precisou esperar mais: lá se vinham, arrastando-se entre as guanxumas. Então ignoravam que a natureza os denunciara? Divisava uma perna e era nela que lhe dormia a mira, um susto e os botava a bom galope. Mas eles trocaram de lugar e então Isidoro, a dez braças se tanto, viu distintamente apenas dois polacos.
            E o terceiro?
            O terceiro, ele não veria jamais.
            Sentiu o baque nas costas, que o grudou na guajuvira. Intentou voltar-se, outro tiro o atingiu na nuca e ele escorregou, abraçado ao tronco, até ajoelhar-se e logo despencar de bruços na folharada.
            – Alguém lhe manda lembranças – disse o homem da túnica.
            Tossia, deitava sangue da boca, do nariz, mas naquele veloz instante, antes que o nada lhe carcheasse todos os pensamentos e todos os dias por viver, pôde figurar mais uma vez a caçulinha dos Castanha. Na memória da pele ainda guardava o cheiro dela, um cheiro alado que o remontava da orla do mato para um peleguito entre flexilhas, onde o deus que mandava no desejo, andando de quatro como um bicho, trazia nas ancas, em balaios de ramaria, o sabor agridoce da pitanga e os suspiros e os gemidos da menina. Não era tão longe o céu. Que lhe cobrasse a vida chica! Ao menos não a perdia por doença, mordido de coral, em salseiro numa cancha de osso ou contra a faca de um maleva encachaçado, mas pro via de um dourado corpo de mulher e com o recuerdo daquela tarde na tapera.

***

RESENHA - O CÉU NÃO É TÃO LONGE

Jacob Klintowitz*

             Ao contrário, é logo ali, em Porto Alegre, RS. É de lá que nos vem esta sensação de que o tempo é imóvel e que o destino existe e se cumpre. Não é só de maravilhas que é feito o céu, mas da ausência de tempo, da consciência de que nada pode ser modificado, de que o que existe é eterno e para sempre, simultâneo diante de nosso olhar: todos os fatos e pensamentos existem no mesmo momento. Como seria possível entender o céu de outra forma ? A morada de Deus não é outra coisa senão o próprio Deus. E o conto de Sergio Faraco, “O Céu não é tão longe” (Zero Hora, Porto Alegre, 04 ago. 2007), entre tantas sugestões, nos envolve em nós mesmos, pois desperta as mais repousadas convicções. O que digo, na verdade, é muito simples: a densidade do conto acorda o que está escondido em camadas amortecedoras de cotidiano.
             O conto se passa no universo rural gaúcho e trata, na minha opinião, de duas questões fundamentais. A primeira, é a consciência de si mesmo. O reconhecimento da individualidade. A segunda questão é o encontro com a Esfinge, o momento em que o homem depara-se com o enigma e a responsabilidade de seu destino. Certamente estas duas questões não são dissociadas entre si e nem o conto, como obra de arte, fecha-se neste núcleo, mas oferece outra gama de possibilidades. O que é condição essencial da natureza da arte, a de se colocar como núcleo simbólico e, evidentemente, prestar-se às várias possibilidades de entendimento.
             O personagem principal, aquele cujo percurso faz desenrolar-se a trama, Isidoro, é senhor de seus atos enquanto segue a rotina composta de trabalho, vida social, comportamento padrão. Mas este domínio de seus atos é, igualmente, ser dominado pela repetição de ações e modos. Ele é, neste sentido, um homem integrado ao padrão, e um padrão agregado ao seu proceder. Em um único momento ele percebe a sua realidade social e a sua revelada individualidade, justamente no ato sexual com a filha de um fazendeiro. Neste momento ele se sente único pelo desejo de que é alvo. A individualidade do outro personagem, a moça que tem desejos e comportamento próprio, e o confronta, torna-o único. O que era vago anseio, o amor impossível, o encontro previamente descartado pela organização social e psíquica, torna-se possível. A moça o conduz: o céu não é tão distante. É quase impossível não relacionar esta relação com o mito do Minotauro, quando Perseu é conduzido pelo fio de Ariadne. Também aqui, o enfrentamento com o monstro é conduzido pela intuição feminina. Isidoro percebe o seu desejo, torna-se objeto do desejo do outro, e nesta relação ele, pela primeira vez, percebe quem é e o que não foi até então. Nos olhos do outro ele encontra a si mesmo.
             A individualidade reconhecida é romper com um tabu. Neste sentido, ao se reconhecer, ele infringe a organização social. O enigma é exatamente este, a medida do entendimento do mundo dos homens. E esta consciência é tão clara para o personagem que ele se recusa a fugir. Ao infringir o tabu o seu destino se escreveu. Em duas ocasiões isto é consignado pelo autor. A primeira, quando a Joaninha, responsável pelo atendimento no bolicho, lhe diz enfaticamente para fugir e ele responde, “Mas o que é isso, moça ?”. A segunda ocasião é quando se recusa a mudar a rota e retornar, pois apenas adiaria o encontro fatídico. Isidoro caminha para a morte e aceita a morte, pois não vê opção. Mesmo que na aventura ele tivesse matado os oponentes, isto de nada lhe valeria, pois o seu algoz estava distante e ele era Todo Mundo.
             A sutileza do conto se revela, ainda mais, ao fazer coincidir o nascimento (consciência individual) e a morte. A moça é afastada do local pela família, sai de foco. E Isidoro penetra mais fundamente no contexto social. Uma vez tornado único, ele mergulha no mundo. Talvez o seu nome, que parece a junção de Isis e Dor seja revelador, na combinação da sabedoria da Mãe Divina e do sofrimento humano. É uma repetição em todas as civilizações, a doação da vida (Mãe) e a dor (Mundo). Sendo verdadeira ou não esta aproximação, o que importa é que o nascimento e a dor do personagem descrevem o seu caminho.
             A saga do personagem estava assinalada pelos olhares, advertências – “Fuja, fuja!”; “...vi três pilungos maneados”; “...até parei para olhar (os cavaleiros). Não se mostraram.” – e pela comparação com a imutabilidade da natureza, o comportamento das formigas, o barulho dos animais na mata fechada. O autor aproxima estas estruturas sedimentadas, a da natureza e a dos homens. Esta estrutura abriga regras determinadas para o seu funcionamento, funções e proibições.
             A essencialidade da narração é exemplar. Sergio Faraco já nos habitou a isto em sua saga pessoal na qual criou uma literatura única. Mas poucas vezes, como neste caso, ela se tornou tão inteiramente o próprio personagem. Não há distância, não há diferença, entre a mestria da narração e a história e seus personagens. A linguagem do artista é o corpo presente, é a tessitura onde se desenrola a aventura e é, pelo seu caráter integrado, o principal personagem deste conto. A narração é a tessitura e a aventura.
             Devemos destacar o silêncio onipresente neste conto. Não apenas por falas curtas, mas principalmente por existir entre elas uma área de significados não ditos, situações, personagens, ritos sociais, indiciados por gestos, olhares, paisagem, rotas. Na literatura de Sergio Faraco o não-dito, sugerido, entremostrado, constituem uma cartografia onde se desenha o verdadeiro símbolo. Entre uma fala e outra, o silêncio cria um espaço de sonho e intuições. Poucos escritores contemporâneos terão esta característica e qualidade. Muitas vezes, procura-se na poesia o silêncio, mas a época é excessivamente estridente. Devemos agradecer ao escritor por nos presentear com o amado vazio, fonte inconteste de toda grande arte.
             O prazer que o conto traz, possibilita a ousadia de uma sugestão. As últimas 4 linhas, quando Isidoro justifica a sua atitude e o preço de sua morte, estão obviamente fora do conto. Não é preciso explicar nada ao leitor. Bastaria, ao morrer, sentir “o cheiro alado...da orla do mato e o sabor agridoce da pitanga...” e saber que “não era tão longe o céu.” Este conto que trata das questões mais graves do ser humano, o destino, o tabu, a consciência individual, o nascimento e a morte, não poderia terminar de outra maneira, “Não era tão longe o céu”, agora revestido de um sentido mais amplo, pois se refere à assunção do coletivo ao individual e ao nascimento (céu divino) que se abre paradoxalmente com a morte.


* Jornalista, escritor e crítico de artes plásticas.

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