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PORTO
ALEGRE DANÇA UM TANGO LITERÁRIO COM O BRASIL
Léa
Masina
Léa
Masina é crítica literária, bacharel em Direito, doutora
em Literatura Comparada e professora no Instituto de
Letras da UFRGS, autora da obra Percursos de leitura,
entre outras.
Dançar tango em Porto Alegre, de Sérgio Faraco, foi escolhido
pela Academia Brasileira de Letras para receber, este ano,
o Prêmio de Ficção. A distinção foi atribuída à coletânea
publicada por L&PM Editores, com textos selecionados pelo
autor. Amigos e leitores do escritor estão em festa, comemorando
o reconhecimento da obra literária de um dos contistas mais
expressivos do Brasil, um escritor altamente profissionalizado,
que desenvolve e articula, aqui no sul, intensa atividade
intelectual. Escrevendo ficção, traduzindo escritores, orientando
e apoiando editoras e planos editoriais, correspondendo-se
com intelectuais e amigos brasileiros e platinos, Faraco há
muitos anos vem contribuindo, sistematicamente, para qualificar
a literatura brasileira. Portanto, nada mais justo do que
a legitimação de sua obra ficcional pelas instâncias acadêmicas.
Dançar tango em Porto Alegre chegou ao centro do país
por mérito do editor, que investiu em sua distribuição. Lido
e compreendido, venceu o preconceito que advém da tendência
homogeneizadora de cada leitor, que pretende reconhecer-se
no que lê. O Brasil que Faraco oferece aos brasileiros destaca-se
por suas peculiaridades e suas diferenças. Para compreendê-lo,
é preciso perfazer um caminho cultural histórico e lembrar,
por exemplo, que a literatura do Norte e do Nordeste, desde
os anos 30, já integra o imaginário brasileiro, ao passo que
a literatura gaúcha ainda é pouco lida fora do Rio Grande
do Sul. Por aqui, circulam alegações, uma das quais, a dominante,
é a de que os textos sul-rio-grandenses possuem um caráter
essencialmente localista. Diz-se, para compensar, que por
isso mesmo existe aqui um circuito de produção cultural quase
auto-suficiente:temos bons escritores identificados com temáticas
locais, um público-leitor fiel e atento, boas editoras, uma
Feira do Livro consagrada como evento cultural permanente
e, ainda, o Seminário de Literatura de Passo Fundo, que legitima
e consagra os escritores do Brasil. Além disso, diz-se também
que os textos dos escritores sul-rio-grandenses são difíceis
de compreender, que abusam de vocabulário de uso restrito,
marcado por laivos dialetais. Evidente que, por trás disso,
há um preconceito anti-regionalista, concepção literária anacrônica
e representativa de ideologias extremamente reacionárias.
No contexto da literatura brasileira, a que a sul-rio-grandense
sempre acompanha, essas manifestações são indicativas de que
as diferenças culturais do sul do país, originadas pela proximidade
com os países do Prata, vem sendo, há muito tempo, rechaçadas
pelas instâncias legitimadoras da cultura nacional. Nós, os
gaúchos, somos os brasileños platinos.
Agora, é óbvio que alguma coisa mudou. Talvez seja a postura
da crítica que se dispõe a avaliar o legado do século. E assim,
dentre os textos exemplares da literatura brasileira, inclui
a obra de Sérgio Faraco como um texto especial, digno de um
prêmio nacional de ficção.
Tem-se afirmado em diversas ocasiões que o regionalismo de
Sérgio Faraco representa o melhor veio da literatura brasileira,
porque registra, ficcionalmente, o que é peculiar e característico
à cultura da região. A diferença cultural é um dos aspectos
importantes da obra desse escritor fronteiriço, que escreve
sobre um espaço regional, que é o seu, e que existe e continuará
existindo, quer seja no Rio Grande do Sul, no Norte, no Nordeste,
em Minas ou onde for que haja uma vertente cultural não de
todo contaminada pela homogeneização urbana. Como já foi dito
por inúmeros críticos, um escritor pode ver o universo a partir
do seu quintal. E rever o seu quintal por uma ótica que o
integre ao conjunto maior de que faz parte. Isso, se me expresso
bem, não anula a diferença, ao contrário, visa acentuá-la,
matizando-a com as cores do particular e do específico. No
caso de Sérgio Faraco, o específico é a criação literária
de uma cultura fronteiriça, presente nos recortes temáticos,
na cosmovisão das personagens e na linguagem.
Dançar tango em Porto Alegre, que toma o título de um
dos contos eróticos mais bem realizados da literatura brasileira,
divide-se em três partes. A primeira reúne textos de cunho
regional, de natureza telúrica, em que a presença da campanha
gaúcha se evidencia pelo caráter fronteiriço das histórias
contadas. Há, nesses contos de recorte realista, a revelação
de uma sintaxe cultural que articula, a seu modo, os componentes
brasileiros e platinos, deixando claro que a literatura dá
forma a uma visão de mundo intrínsecamente formada pelo contexto
histórico e social. E também pelo antropológico, eis que as
personagens de Sérgio Faraco agem segundo uma lógica também
fronteiriça, produto de uma cultura brasileira extremamente
diferenciada, urdida nos séculos de convívio com a cultura
platina. E entram aí os mitos, os arquétipos, os modelos de
comportamento que se formam na vida social. E que se transculturam,
para usar uma expressão do crítico uruguaio Ángel Rama, ao
referir-se ao processo de transformação por que passam as
literaturas quando emigram de um sistema cultural para outro.
Mas como literatura se faz com palavras, contribui para a
excelência dos contos de Sérgio Faraco o modo como o escritor
assenhora-se da frase, da palavra, deixando para o leitor
a sensação de vida. O boleio platino das frases, algumas expressões
em espanhol, preservando a oralidade da fala e trabalhando
a naturalidade do texto, completam a tarefa de tornar verossímeis
esses textos, em que os sentimentos humanos destacam-se pela
perspicácia e pela delicadeza com que o autor os engendra.
Nos contos de Faraco, o amor se revela em formas múltiplas,
com uma delicadeza e uma finura psicológica que só se lêem
nos grandes escritores.
Nos textos ligados à temática regional, a concepção da complexidade
humana revela-se no modo como o narrador subverte o mito da
gauchônia, este sim, superado pelo tempo. Os gaúchos fronteiriços
de Sérgio Faraco têm sentimentos e por isso vivem conflitos
íntimos, como o rapazinho de "Dois guachos", cuja
ambivalência com relação à figura da irmã serve de contraponto
à rudeza primitiva dos costumes da campanha. Em "Noite
de matar um homem", a experiência da primeira
morte, espécie de ritual de iniciação na comunidade dos changueiros
e dos contrabandistas e bandidos da fronteira, torna-se dramática:
o indivíduo eliminado nem trazia armas consigo, só uma pequena
gaita de boca. Em "Travessia", há o menino que se
inicia com o tio no contrabando, cruzando a fronteira pelo
rio. Esses ritos de iniciação repetem-se noutros contos, como
se o escritor procurasse compreender, pelas vertentes da ficção,
o que se passa no coração dos homens, quando vivem situações-limite
das quais sairão, para sempre, transformados. Em "O vôo
da garça-pequena", Maria Rita, a menina prostituta, têm
idéias e encomenda um rádio ao contrabandista López. Ela deseja
voar, como a mais graciosa de todas as aves do banhado,
a garça-pequena com seu véu de noiva, suas plumas alvíssimas,
e voava longe, para o alto, e era o vôo mais tristonho e mais
bonito. Em "Guapear com frangos", os gaúchos
arrastam o corpo, já decomposto, de Guido Sarasua, na obrigação
de não deixar corpo de homem sem velório. O percurso,
em meio ao calor, aos odores da matéria em decomposição e
à ação das aves carniceiras, das moscas e dos vermes, termina
com um golpe de misericórdia: E como quem parte uma acha
de lenha (...) abriu-lhe o osso do peito ao meio. Já em
"Sesmarias do urutau mugidor", confrontam-se os
valores da cultura antiga com a do homem urbano. Nesse conto,
o personagem-narrador, por ser um homem culto, um escritor,
favorece, com seus monólogos, uma leitura crítica do confronto
de culturas, com seus valores e seus rituais de preservação
e sobrevivência. Espécie de alter-ego do próprio escritor,
suas emoções fluem numa narrativa densa e perceptiva, que
vê o íntimo das demais personagens para respeitá-las e tratá-las
com dignidade. Seu encontro final, quando Maria deita-se com
ele e lhe pergunta se ouvira o urutau mugindo, e ele responde
que era apenas um boi, pode ser lido como metáfora desses
processos de trocas culturais: cada um preserva a sua unidade,
embora componha, com o outro, um conjunto novo. Híbrido, se
quisermos. Ou transculturado.
Mas Dançar Tango... compõe-se de mais duas partes.
A segunda acolhe contos em que um personagem, menino, descobre
os viéses do mundo. Este não se apresenta de forma monolítica
ou maniqueísta: pelo contrário, o amor e o carinho convivem
com perdas irreparáveis, como a morte e outras mortes, o que
torna o conjunto de textos uma espécie de visão do mundo,
apreendida no seu processo de formação.
São, porém, os contos do terceiro bloco, que deixam ler, de
forma muito clara, o que Sérgio Faraco concebe ser a função
do escritor. Em todas as histórias, as marcas visíveis são
a solidariedade, a generosidade, o reconhecimento das qualidades
humanas, a dignificação do homem, independente da adversidade
e das circunstâncias. As personagens de "A dama do Bar
Nevada", "Um aceno na garoa", "Dançar
tango em Porto Alegre", são prostitutas, marginais, mendigos,
gente desvalida e desesperada, que vive situações-limite.
Lidando com essa matéria humana, Faraco mostra, com a força
de sua ficção, que o respeito e a dignidade não são adereços
tão-só de cidadãos distintos e abonados. Sem proselitismo
e sem concessões a idéias que não sejam exatamente aquelas
que o conto está a exigir, Faraco constrói um painel de seres
desvalidos, pobre-coitados que a sociedade, por princípio,
exclui. Nesses contos, no entanto, o autor resgata um detalhe
qualquer, para que nós, leitores, possamos saber que para
todos ainda resta uma esperança.
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