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UMA
ESTADIA NO INFERNO RUSSO
Fabrício
Carpinejar
Lágrimas
na chuva (L&PM, 171 páginas), eleito o melhor livro de 2002
pelo jornal Zero Hora, é um breviário doloroso de dois
anos (1963-65) de Sergio Faraco na União Soviética, onde cursou
o Instituto Internacional de Ciências Sociais, de Moscou. Poderia ser
catalogado como uma curiosidade o fato de um dos melhores contistas brasileiros,
autor de Rondas de escárnio e loucura, se propor a fazer uma
biografia. Mas não foi uma extravagância. A obra demorou trinta
e cinco anos para ser externada. O escritor relutou em transpor suas experiências,
ensaiou o início várias vezes, até que aceitou publicar
capítulos semanais no jornal A Notícia, de São
Luiz Gonzaga. O compromisso semanal o obrigou a disciplinar as recordações.
A demora também ganhou um maior sentido com a frase de personagem de
Juan José Morosoli, que reluz como epígrafe da narrativa: “As
viagens só começam depois que a gente volta”. Na literatura,
os desembarques demoram a acontecer. Volta-se o corpo, mas não as bagagens.
O livro retrata o perfeito caso de extravio de pertences.
Faraco é filho da serenidade e não
faz outra coisa senão deixar a narração a cargo dos próprios
acontecimentos. Ele torna-se um espectador silencioso de seu percurso. Tudo
é posto no devido lugar, cada fraseado, sem excessos literários,
fluxo desordenado de consciência e achaques de estilo. Conta-se o que
se ouviu, ainda que os pensamentos queiram opinar. A escrita fecha a letra em
linha seca e reta, impiedosa como cortes de estilete em papel grosso. Os riscos
ao drama folhetinesco eram enormes. A história oferecia elementos para
chorar ritmado. O que se encontra é a maturidade objetiva e a contenção
de quem não faz juízos morais ou recrimina culpados (e motivos
não faltavam para isso).
O enredo mostra o convite aceito de um jovem
escritor, aos 24 anos, para estudar na União Soviética, em 1963.
A provável aventura desemboca numa tragédia. Simpatizante do comunismo,
o rapaz está disposto a conhecer o mundo e juntar currículo, atendendo
a avidez de seu futuro em aberto. A viagem acontece no momento errado do jeito
errado. Lá chegando, no frio russo, entre o romance com Nina e o aprendizado
áspero da língua, descobre que o regime não admite nenhum
desvio e discordância. Ocorre o aniquilamento da individualidade em nome
de uma hipnose coletiva. A ironia é que o protagonista passa a ser denunciado
pelos colegas brasileiros e termina em uma clínica psiquiátrica
para correção de comportamento. Voltar ao Brasil é quase
impossível, já que começava um regime militar no país
e ele carregava o antecedente de uma viagem à URSS. Estava definitivamente
exilado entre dois mundos, sendo que num deles seria visto como comunista e
no outro, como anti-comunista. Nenhuma das paragens o permitia existir.
Apesar da ênfase memorialística,
Lágrimas na chuva (o título é pop, inspirado em
frase do filme Blade runner) estabelece uma carga extra de fabulação
e tensão ficcional. São confissões generosas, que não
levam à amargura, e afirmativas, apesar do contexto de trevas e solidão.
Revelam um alto grau de compreensão dos limites. Servem também
como alerta ao totalitarismo que cresce na covardia moral individual. Talvez
seja um livro feito para a memória, não da memória. Não
é de se estranhar que grandes romances no país, como bem observou
Luis Augusto Fischer, tenham essa ligação uterina com a evocação
das lembranças, seja contemporaneamente com Carlos Heitor Cony (Quase
memória), seja em outras eras com Raul Pompéia (O Ateneu).
O visionário memorialista mineiro, Pedro Nava, completou o quebra-cabeça
sobre as diferenças entre o vivido e o inventado. A peça que faltava
está em seu terceiro volume autobiográfico, intitulado Chão
de ferro: “Que é a verdade? É com essa pergunta que
entro nesta fase de minhas memórias, fase tão irreal e mágica
e adolescente como se tivesse sido inventada e não vivida. Se eu fosse
historiador, tudo se resolveria. Se ficcionista, também. A questão
é que o memorialista é a forma anfíbia dos dois e ora tem
de palmilhar as securas desérticas da verdade, ora nadar nas possibilidades
oceânicas de sua interpretação”. Nesse sentido, Lágrimas
na chuva é um romance real. O que vale é o impacto psicológico
que proporciona. Se a emoção não serve ao historiador,
ao ficcionista é tudo. Faraco fez ficção da realidade.
O tempo virou engenho da memória. O escritor encontrou a sua verdade,
diferente de todas as outras verdades e, portanto, tornou possível e
suportável a vida, que nunca dá mesmo maiores explicações.
(Publicação
original em http://carpinejar.blogger.com.br)
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