Na
literatura brasileira contemporânea, a opção pela narrativa curta, que teve
como grande mestre Machado de Assis, viveu um período de apogeu nos anos 70,
época em que Sergio Faraco publicou seus primeiros contos (Idolatria,
1970, Depois da primeira morte, 1974, Hombre, 1978), mas logo
se tornou um gênero menos praticado até a década de 90, quando volta a se
firmar como característica de época, indicando uma preferência em relação
à brevidade, antecipatória, conforme Italo Calvino em Seis propostas para
o novo milênio [1] ,
de uma tendência do século XXI.
O
conto atende à expectativa dos leitores contemporâneos e corresponde a uma
opção formal de seus produtores. Desenvolve de maneira densa uma história
curta, costuma flagrar um momento de transformação em relação aos fatos da
situação inicial, organizando-os com vistas ao desfecho. Personagens agem,
em um espaço físico e social geralmente dado, provocando ou vivendo transformações
motivadas pelo movimento de busca, concreto ou abstrato, que empreendem.
Tal
espécie narrativa, aparentemente mais simples, parece ter mais facilidade
de circulação e leitura e atinge um público mais amplo e diversificado. No
entanto, o conto é de difícil execução, exige domínio técnico que ultrapasse
o esforço da criação de um clima e dê real testemunho de uma parcela da vida
humana. Por esse motivo, talvez, escritores que estrearam em 70 como contistas,
logo se firmaram como romancistas ou não se firmaram como ficcionistas.
Na
perspectiva do leitor, o conto propõe uma atitude em relação à unidade de
cada texto, mas também desafia a uma visão mais abrangente do conjunto da
produção do autor, demandando uma relação diferenciada e plural a cada leitura.
Dito de outra maneira, uma obra desafia a compreensão de cada conto em particular,
mas também demanda uma unidade de conjunto, propondo permanente releitura
do já lido frente ao novo.
Durante
a década de 80, contrariamente ao movimento de época, Sergio Faraco manteve-se
contista. Publicou Manilha de espadas, 1984, Noite de matar um homem,
1986, Doce paraíso e A dama do Bar Nevada, 1987, e, na década
de 90, Majestic Hotel, 1991, Contos completos, 1995 — quando
declara haver encerrado a profissão de escritor — e ainda, para a satisfação
de seus leitores, Dançar tango em Porto Alegre, 1998, e Rondas de
escárnio e loucura, 2000. É o mais importante contista gaúcho e um dos
mais criativos do Brasil, graças a sua atitude meticulosa, que relê e reescreve
permanentemente seus textos. Através da narrativa curta, realiza uma das funções
mais significativas de sua obra: a reflexão a respeito da característica de
fronteira do Rio Grande do Sul, inscrevendo o Estado em suas particularidades
com relação ao resto do país e aos limites do pampa gaúcho, o que deixa marcas
indeléveis em seus habitantes e delineia uma estética que, segundo Vítor Ramil,
pode ser denomina “do frio”. [2]
Os
contos de Faraco desenvolvem três focos temáticos principais:
·
a vida rural, especialmente na região da fronteira, à maneira
de Simões Lopes Neto, onde as personagens se envolvem em paixões radicais
e preservam valores de lealdade e coragem, tão necessários aos afazeres característicos
dos comerciantes que vivem do contrabando ou dos peões que enfrentam o clima
adverso no cuidado dos animais e da terra;
·
a memória de uma infância e adolescência instigantes, de vivências
de encantamento e frustração, de descobertas, condicionante dos sentimentos
dos adultos e das experiências eróticas e existenciais dos jovens, assim como
José J. Veiga ou Luiz Vilela;
·
a amargura dos homens e mulheres do submundo urbano, velhos
e desempregados que denunciam uma permanente relação de atrito com a adversidade
de sua história presente, como em João Antônio.
A
comparação de Sergio Faraco com importantes contistas brasileiros não é gratuita:
ela dá a dimensão da grandeza desse escritor gaúcho que representa o que de
melhor se produz em literatura nacional, aliás, reconhecida através de premiações,
tais como a da União Brasileira de Escritores, conferida ao melhor livro de
contos publicado no Brasil em 1987, com A dama do Bar Nevada, e, em
1999, o Prêmio Nacional de Ficção, atribuído pela Academia Brasileira de Letras
à coletânea Dançar tango em Porto Alegre, como a melhor obra de ficção
publicada no país em 1998. Em 2000, seu conto “Idolatria” foi escolhido como
um d’Os cem melhores contos brasileiros do século. [3]
Tratamento
temático e identidade gaúcha
Em
toda sua obra, é marcante a influência da fronteira, responsável pela plasticidade
da linguagem e das narrativas, centradas em cenas do cotidiano e desenvolvidas
através de diálogos rápidos, com estilo conciso e coloquial. Entretanto, a
fronteira aqui não se reduz aos limites geográficos, amplia-se no tratamento
de temas derivados dessa concepção e se enriquece ao desenvolver aspectos
que indicam transição, mudança, mistura e convivência de características originariamente
atribuídas a um espaço/condição determinado, tais como a perda da inocência
na adolescência ou o endurecimento dos afetos dos marginais urbanos. Seu universo
ficcional é povoado por homens, mulheres e meninos que forjam seu caráter
na adversidade da vida ou padecem de profunda nostalgia de um tempo que lhes
afetou o modo de ver as coisas ou lhes moldou o espírito de acordo com a natureza
telúrica do espaço habitado. O pampa é o território e o pano de fundo que
permite entender os dramas vividos pelos protagonistas, que contextualiza
a realidade a sua volta, legitima sua ação, sem escamotear suas mazelas pessoais.
É também a marca cultural desse escritor fronteiriço, produto de uma cultura
histórica e socialmente diferenciada, que lhe permite ver o mundo através
de perspectiva local e que também o habilita a valorizar o seu lugar por meio
de situações-limite de plena humanidade, vivenciadas por seus personagens.
Tais situações universalizam a experiência humana e motivam a solidariedade
do leitor, numa relação humana e literária pautada pelo frio do sul. Elas
também abrem perspectiva para a aproximação de extremos, para a vivência do
grotesco e do sutil, como o que é apresentado em “Guapear com frangos”.
Nesse
conto, alguns homens procuram o corpo de um companheiro, que “desmerecendo
o aconselho da razão” se aventurou à travessia do Rio Ibicuí e morreu afogado.
Depois de dois dias de busca, ele é encontrado:
Os
homens laçaram o corpo e o trouxeram. Deitaram-no em um lugar seco e foram
reunir-se ao longe para decidir se enterravam ali mesmo — tal o estado em
que se encontrava — ou levavam à família. Guido Sarasua, quase sentado em
sua rigidez de morto velho, parecia querer ouvir a discussão de seu destino
e fitar os homens com o buraco dos olhos comidos pelos peixes. O sol pegava
de viés no seu costado e ele parecia mais inchado, mais verde, tão decomposto
que o filho do chacreiro, a vinte braças, vomitou três vezes. Os mais velhos,
não: já haviam laçado outros mortos naquela e noutras águas, já não se achicavam
no primeiro bafo da podridão. E foi por isso que, num acordo que lhes pareceu
decente e respeitador, resolveram que o morto não podia ser entregue aos bichos
sem os recomendos do padre e uma vela que alumiasse os repechos do céu. (p.31-2)
O
breve trecho é ilustrativo do cunho regional do conto, seja pelas referências
geográficas que possui (o Rio Ibicuí, a cheia), pelo vocabulário e a sintaxe
cultural que apresenta (achicar, repechos, de forte influência castelhana),
seja pelos traços relativos a um contexto social e histórico bem delimitado,
pautado por modelos de comportamento presentes na vida em comunidade, por
marcas de religiosidade, pela bravura dos seus homens. Tais aspectos, já presentes
na abertura, são ressaltados durante o trajeto de volta, tarefa que coube
a López, após distribuírem-se afazeres relativos à encomendação do corpo e
ao aviso à família:
Partiu
com o baio a passo, cruzando braços de rio, rasas lagoas, areais, o galharedo
se enganchava no cordame e ele precisava desmontar, tocar no corpo, vez por
outra erguê-lo, sacudi-lo. Nem deixara ainda os sítios inundados quando lhe
escapou um gemido. Apeou-se, correu até um pequeno descampado e chegou já
vomitando. Sentou-se por ali, arreliado consigo mesmo. Na sua lida diária,
de tropeadas secretas que varavam alambrados, de furtivas travessias do grande
rio que corria em cima da fronteira, na sua lida de partilhas, miséria, punhaladas
e panos ensangüentados, via a morte e a corrupção do corpo como outro mal
qualquer, como os estancieiros, a polícia, os fuzileiros e os fiscais de mato,
não podia aceitar que numa viagem de paz viesse a ter enjôos de chininha prenha.
(p.33-4)
No
cumprimento da decisão coletiva, a viagem de volta dá a conhecer o caráter
do homem que habita esta terra, indica a relação telúrica, apresentando uma
visão de mundo que particulariza o gaúcho e destaca o que há de específico
e particular nesse contexto. Tal relação cresce com o desenvolvimento da narrativa,
mostrando a hesitação de López entre seguir a natureza ou escolher a cultura.
Durante o percurso, sob o sol forte, diversos animais disputam a posse do
cadáver. Após extenuante luta para cumprir a decisão do grupo, López é vencido
por um ataque de corvos:
Era
a lei, pensava, e pelear com aqueles frangos negros não ia mudar coisa alguma.
E era a mesma lei que reinava em sua vida e na vida de seus conhecidos. Todo
mundo se ajudava, claro, mas quando alguém morria os outros iam chegando para
a partilha dos deixados. Peixes, moscas, tatus, ratos, aves carniceiras comiam
o bucho, as coxas e os bagos de Guido Sarasua. Os companheiros levavam do
morto uma cadeira, uma bacia, um par de alpargatas pouco usadas, um ficava
com a cama, outro com a mulher, e a miuçalha, como a ossada de uma carniça,
ia se extraviando ao deus-dará. De que adiantava guapear com os bichos? Aproximou-se
do corpo estraçalhado. De Guido Sarasua ainda sobravam algumas carnes, protegidas
pelas costelas e outros ossos maiores — o bastante para um bando de urubus
famintos. Desembainhou o facão.
—
Me desculpa, índio velho.
E
como quem parte uma acha de lenha, curvou-se sobre o Sarasua e abriu-lhe o
osso do peito ao meio. (p.41-2)
O
epílogo do conto corresponde à fusão entre a natureza e a cultura, e a atitude
de López dá dimensão característica e peculiar à região. O reconhecimento
dessas diferenças, no entanto, apresenta um traço de profunda humanidade do
gaúcho, apontando para a universalidade da narrativa.
À
sua maneira, também a fronteira entre a condição infantil e a maturidade caracteriza
o universo juvenil, outra vertente temática de sua obra, onde acontecem importantes
descobertas eróticas e existenciais, como é o caso de “Majestic Hotel”.
No
conto, o narrador assume o ponto de vista de um jovem que rememora, ao encontrar
um soldadinho de chumbo entre cadernos velhos e brinquedos, uma viagem a Porto
Alegre que, ainda menino, fizera com a mãe: Nunca lhe disseram e tampouco
perguntou por que tinham feito aquela viagem. Decerto era para consultar um
médico, que outro motivo levaria à capital uma jovem mulher e seu filhinho?
(p.90). Esta declaração antecipa um clima de duplicidade de sentido aos fatos
relatados, uma vez que o narrador possibilita uma forma de decodificação do
leitor que difere da compreensão do menino-personagem.
O
narrador refere que o menino ficava por muito tempo recluso no hotel, o que
lhe reforça a idéia de que estava doente, e fala do medo que ele sentia nos
momentos em que ficava só, quando a mãe se afastava “para buscar sua comida”.
Durante toda a viagem, apenas uma vez ela o levou à rua:
Que
rua grande, que rua enorme e era preciso caminhar, caminhar... teriam ido
ao médico? Não se lembrava. Mas lembrava-se muito bem da volta ao hotel, os
dois de mãos dadas e ele orgulhoso de estar ao lado dela, tão bonita e cheirosa
que ela era.
Passaram
depois numa praça com um laguinho e um cavalo de pedra e também ali havia
pessoas demais, só que sentadas e pareciam de pedra como o cavalo do laguinho.
E outras em pé, paradas, e outras movendo-se lentamente pelos caminhos da
praça, e outras dormindo sobre jornais nos canteiros, e no meio desse exército
de caras pôde notar que um homem os seguia e os olhava.
Não
que os olhasse.
Olhava
para ela.
Assustado,
segurou a mão dela com força. Continuaram andando e depois da praça olhou
para trás e lá estava o mesmo homem, destacando-se dos outros, como um general.
(p.91)
Nessa
altura, instala-se definitivamente a ambigüidade da narrativa, que se divide
entre o amor incondicional do menino à mãe e a traição insinuada pela presença
do homem, a volta à reclusão do menino e o novo afastamento da mãe. O relato,
ao mesmo tempo que revela a possibilidade de uma visão idealizada do universo
infantil (Queria avisá-la, cuidado, ele quer te roubar de mim e de papai,
mas não se animava, receoso de que sorrisse novamente aquele sorriso perigoso
(p.92), expõe o sentimento de abandono e dor que se apossa do menino:
Deitado,
esperava, e ouvia vozes no corredor e portas que batiam e ouvia também arrulhos
de pombas e, às vezes longe, às vezes perto, a correria dos bondes a rinchar.
E tinha medo, fome, tinha falta de ar e ela não voltava. A cama conservava
o cheiro dela e ele, abraçado ao travesseiro, suplicava: “Volta, mamãe”. E
ela não voltava. E quando lhe ocorreu que ela poderia não voltar, desceu da
cama, abriu a porta e seguiu pelo corredor, na esperança de avistá-la das
sacadas. Subiu na grade e, sem entender, viu que era noite. (p.93)
A
vivência do amor e do medo apresenta o menino à contradição dos sentimentos
opostos sem maniqueísmos, expõe-no à fronteira entre a ingenuidade e a descoberta,
marca-lhe definitivamente o processo de formação. Ao retornar, junto com o
jantar, a mãe lhe traz um embrulho:
Não
quis abrir, sentido, e ela mesma o fez. Gostaste, amor? Ele olhou e já não
estava mais sentido. Estava feliz. Afinal, ela tinha voltado, e com ela não
viera um general, só aquele soldadinho envolto no perfume dela, tão bonitinho,
o mesmo que agora ele apertava na mão e que, entre as lembranças do Majestic
Hotel, era sua única certeza. (p.94)
Na
perspectiva do leitor, o epílogo estabelece espaço para uma suposta traição
materna, em nenhum momento colocada pelo menino com a radicalidade que seria
impossível de ser assumida pelo jovem a quem o narrador se solidariza. Acentuam-se,
em conseqüência, os méritos do escritor, capaz de ser fiel, a um só tempo,
ao leitor e ao universo narrado.
Também
a fragmentação, o desencontro e a amargura do homem urbano, que se torna vítima
de sua condição de estrangeiro num espaço adverso, está na fronteira entre
a dignidade humana e a brutalidade das relações sociais impostas pelo submundo
da cidade, como se verifica em “Um aceno na garoa”.
No
conto, um desempregado miserável, em via de ser despejado do pobre apartamento
em que mora, acolhe uma prostituta menor de idade para protegê-la do assédio
de um homem que quer roubá-la, do frio e da garoa. O encontro desses dois
excluídos é um dos momentos de maior densidade humana do livro. Eles se apresentam
como exemplos de generosidade, respeito e dignidade, dividem suas mazelas
e suas posses, expõem toda a sua desconfiança em relação aos outros, sua carência
de afeto e reconhecimento humano.
Após
tomar café com o pó que, momentos antes, o homem dividira para assegurar alimento
para o dia seguinte, a menina é acometida por forte tosse, provocando a intervenção
do narrador-personagem:
—
Tá feio isso. Não tomaste um xarope?
Já
tossia novamente. Em casa, nada tinha para dar-lhe, mas na semana anterior
eu mesmo estivera com tosse e me arranjara.
—
Vou te curar.
Fui
ao corredor do edifício, retornando em seguida.
—
Que é isso?
—
Samambaia. A vizinha tem uma ali na porta.
—
Não é veneno?
—
Veneno é essa tosse.
Liguei
de novo o fogareiro.
—
Quem te ensinou que faz bem?
—
Uma velha.
—
Ah — fez ela.
Deixei
o fogareiro aceso, por causa do frio que entrava pela porta.
—
Toma, bebe que é bom. (p.122-3)
Agradecida,
a jovem passa a fazer-lhe agrados, ofende-se ao ser recusada, grita, oferece-se
de diferentes maneiras e, a cada investida, mais se expõe e solidariza com
a miséria vivida pelo homem. Várias peripécias culminam com a consumação do
sexo e com a solidariedade absoluta entre esses miseráveis:
—
Quer que eu volte amanhã?
—
Não, não quero — e fiz um sinal para que não falasse tão alto.
—
Mas eu volto — baixando a voz — na mesma hora, tá? Vou trazer açúcar, pó de
café, bolinho de polvilho, tenho uma porção de coisas no meu quarto.
—
Não precisa trazer nada.
—
Precisa, sim. E se a bruxa velha te botar na rua, tu pode ficar lá comigo
o tempo que quiser.
Ventava
um pouco, pequenas rajadas vinham dar na minha janela, com respingos de garoa.
—
Te amo — eu disse.
Ela
bateu com o pezinho no chão.
—
Tô falando sério!
—
Eu também — eu disse. (p.129)
O
conto flagra uma situação-limite entre prostituta e miserável, mas também
é um exemplo de respeito humano e, apesar da crueza da denúncia que faz, é
impactante pelos sinais de dignidade presentes entre os desvalidos.
Numa
leitura abrangente dos contos reunidos em Dançar tango em Porto Alegre,
a idéia de fronteira é uma constante e está apresentada tanto em relação ao
espaço físico, quanto à perda da inocência ou à própria condição humana. Em
qualquer circunstância, ela propicia a vivência de situações-limites — fronteiras,
portanto — em que o passado se contrapõe ao presente, os largos espaços de
ontem cedem lugar às estreitas habitações, quartos pobres de pensão, cafés,
assim como a memória de um tempo que não mais existe contrasta com valores
de dignidade cultivados mesmo em contexto adverso.
Tal
contraste dá matéria à imagem do gaúcho e do pampa. Do rigor da construção
dos contos decorre a concepção fria do território (ou será o contrário?).
Num e noutro espaço, no entanto, desenvolvem-se vidas plenas de humanidade,
de luta, de anseios por sobrevivência digna, de busca, de amor intenso, de
emoção. A busca é mais promissora nos contos de infância, mas não escondem
a nostalgia de um ponto de vista já amadurecido, que faz lembrar um tempo
em que a amargura não havia contagiado o espírito do homem ou que flagra justamente
o momento de perda da ingenuidade. Em outros, é indício de luta pela sobrevivência,
por decência, amor, e guarda a lembrança de uma condição que ficou para trás.
Tais aspectos constituem a pluralidade de sentimentos que o autor quer flagrar,
dão sentido à paisagem fria, orientam a leitura do mundo. Favorecem também
uma narrativa de introspecção, destacam qualidades humanas e apresentam um
tratamento temático uniforme, perseguido com uma regularidade obsessiva que
pode até ter sido responsável pelo anunciado encerramento da atividade produtiva
do contista. É interessante verificar que, após tal anúncio, Dançar tango
em Porto Alegre é uma espécie de obra-síntese, que republica, separando-os
por grupos temáticos, textos já publicados em outras obras, quase todos retrabalhados
em algum aspecto. Nesse sentido, mais do que Contos completos, Dançar
tango em Porto Alegre pode representar a fixação de um imaginário regional,
uma vez que corresponde ao olhar crítico do escritor sobre sua obra, destacando
do conjunto o que corresponde à síntese de sua produção.
Através
da fixação do imaginário regional, no entanto, a obra de Faraco se universaliza,
incorpora e amplia a questão da fronteira e dramatiza a luta humana em diferentes
situações de vida.
Ao
mesmo tempo em que recorre à tradição para fixar a memória de seres humanos
que se reconhecem ao se afastarem do estereótipo do brasileiro — valendo-se,
por exemplo, de uma linguagem caracteristicamente regional, seja pelo léxico
utilizado, seja pelos elementos que compõem a escolha imagética —, se universaliza
ao dar voz a homens e mulheres que vivem uma existência fragmentada e dramática.
O
gaúcho aparece não como estereótipo, mas como o trabalhador rural, proletarizado,
em uma dimensão sociológica, como figura humana. Há alargamento da condição
regional e privilégio ao tratamento da condição humana através da apresentação
do mundo interior, de descoberta do amor, do erotismo. Há também a apresentação
dos grandes dramas urbanos, representados pela miséria, marginalidade e desvalimento
social. Nesse processo, Faraco desmitifica emblemas regionais consagrados,
mas reafirma a estética do frio, isto é, integra-se a uma visão mais ampla
da cultura gaúcha.
A
interação telúrica com o espaço, com a natureza ou com a geografia urbana,
reafirmam sua identidade e pertencimento. Através do entrecruzamento de idiomas,
costumes, destinos, o escritor opta pela condição humana, dá mais ampla dimensão
à noção de fronteira e realiza, através da narrativa curta, um momento de
grande expressividade da literatura brasileira.